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Ficções Phantasticas, n.º 2

02.03.14

Ficções Phantasticas, n.º 2

Editores: Marcelina Gama Leandro e Álvaro de Sousa Holstein

A leitura da antologia não foi totalmente satisfatória...

Nota 3/5.

Uma nota: fui um dos revisores do projecto e a ilustração da capa é de minha autoria :)

 

Depois de um primeiro número formado por emocionantes histórias, este número 2 chega a ser algo decepcionante. Dois contos são de terror e o terceiro é terrível. O Terror é um género muito difícil, é raro sentir medo ou sentir uma espécie de temor ao viver uma história. Se no filme até pode ser habitual, a história escrita é que é mais complicado em deixar-me petrificado ou com espírito inquieto. Talvez seja exigente com os contos: ou cumprem esse primário objectivo ou não.
Não acho que isso tenha acontecido com estes contos.


A última missa, de Raquel da Cal - 2*
O conto usa elementos habituais do terror gótico mas vale sobretudo por situar-se em território português, uma aldeia como tantas, e trabalhar com a credulidade e fervor religioso dos habitantes. O padre Figueiroa é transferido para uma aldeia e cedo se apercebe de um certo mistério que lá ronda e da atitude distante dos habitantes. É auxiliado por uma garota na resolução do mistério e envolve-se num conflito final com muita acção. Dá a ideia de que a personagem pode participar em mais contos, há ali material para mais.
O terror assenta numa manifestação sobrenatural, não é feito de temor psicológico em que sentimos o lado irracional tomar conta da personagem. E isso verificou-se na história, a personagem nunca mostrou ter medo ou ralação, ou colocada em situações de perigo. Talvez uma inquietude, mas penso que podia haver mais dramatismo, algo mais que pudesse destacar-se dos demais contos lidos e puxasse pelo meu entusiasmo.
Não pude apreciar a leitura do conto devido à escrita. Tem muito ruído. Muitas repetições e muitos tiques. Comecei a prestar demasiada atenção aos tiques e isso fez quebrar-me o ritmo da leitura, o que me deixou frustado. Principalmente em contos de terror, o leitor deve sentir-se agarrado ao ambiente construído pela história e não mais ser largado. Um exemplos dos tiques neste conto é o recurso à expressão "este", como em "Maria atirou um prato ao João mas este desviou-se a tempo". Porque não usar um "ele"? Ficaria mais agradável de se ler, e se o autor quiser até pode prescindir de usar pronomes. Basta ter o cuidado de manter a história no ponto de vista do protagonista. Agora, o termo "este", geralmente usado para designar a última pessoa ou coisa a ser referenciada, ser usado quando a personagem está sozinha no quarto... desagrada-me.
Gostava de voltar a ler textos do autor mas espero que com uma escrita mais aprumada.

A coisa no CPU, de Ricardo Dias - 3*
Foi mais agradável de ler, tem uma escrita cativante. E tomou uma direcção diferente: é simples e é psicológico.
Uma personagem sem nome tem um trabalho de secretária: enfadonho e com um computador. E um dia o computador assume comportamentos esquisitos e o protagonista desconfia que se trata de um vírus. Ele não está habituado a tal situação melindrosa e, apesar dos esforços da ajuda técnica, a cada dia que passa sente-se mais desgastado com a presença no computador.
Não pude deixar de recordar-me, durante a leitura, de alguns recentes filmes japoneses que bem exploraram o medo a propagar-se através de meios audiovisuais. Este conto conseguiu recriar esse mesmo fascínio e foi fácil "ouvir" o familiar ruído branco enquanto via as imagens a serem reproduzidas no ecrã do computador de escritório. Essas imagens, por sua vez, são inspiradas num mundo ficcional bastante conhecido entre os fãs de terror. Certamente que será mais apreciado pelos fãs dessa mitologia. Eu gostei muito de ler, deixou-me entusiasmado em querer saber mais pois o suspense estava bem feito, mas achei que faltava uma cena mais, uma que me deixasse totalmente atarantado. Não sei, acho que o autor podia ter ido muito mais longe, brincar um pouco mais com o suspense e com o destino da personagem. O conto tinha imenso potencial! Acho que foi tanta a antecipação que no fim não se viu a sua recompensa desejada.

Eu trago o fogo do Sol, de Carlos Alberto Espergueiro - 1*
Conto maçador e confuso. É todo dedicado à descrição de um mundo ficcional. Fala de Energia? De Igreja e governos? O autor entusiasmou-se em falar de ideias e expressões "científicas" rebuscadas de que foi capaz a sua fértil imaginação, e que não achei totalmente claras, mas esqueceu-se que o mais importante, sempre, é a narrativa.

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publicado às 23:00

Curtas

14.02.14

Vila de Cobres

Olinda P. Gil

Nota 5/5.

O meu conto favorita da autora, até agora.
É estruturado magistralmente por analepses, deixando-me juntar as peças até aos derradeiros parágrafos.
E nem é isso o que mais gostei do conto.

Na Estrada de Mértola

Olinda P. Gil

Nota 4/5.

Um conto de terror psicológico com elementos da longa e boa tradição do género "Slasher".
A escrita é clara e directa, em contraposição com o enredo sombrio, e fiquei sempre a aguardar com expectativa pela resolução.
Gostaria de ter lido mais sadismo.

The Addams Family: An Evilution

Chas Addams

Editor: Kevin Miserocchi

Nota 5/5.

Só conhecia a Família Addams pelos seus filmes, desconhecia que eram adaptações de cartoons e desconhecia o seu criador, pelo que este livro foi perfeito para mim.
Com muitas notas informativas, algumas escritas pelo próprio cartoonista, e agrupadas por cada uma das personagens, foi muito agradável conhecer as estranhas mas sobretudo ternas personagens. Muitos cartoons fizeram-me sorrir e aos poucos maravilhava-me com a natureza peculiar da família, mas alguns deles não entendi, talvez só os fãs reconheçam as ideias...
Uma grande nota para a arte. São poucos, no meu entender, os cartoonistas capazes de elaborar universos tão reconhecíveis, tão seus, mas sobretudo sumptuosos, sofisticados e com sensibilidade. Um forte uso de tons negros na casa degradante, nos quartos e no jardim descuidado, mas uma arte longe de ser suja e chata. É linda.
Um livro comemorativo (até tem cartoons que não tinham sido publicados) que cumpriu o seu propósito: querer ler mais da obra do Chas Addams.

Crónica dos Bons Malandros

Mário Zambujal

Nota 3/5.

Foi-me dito que seria um livro divertido e li com essa expectativa. Mas, como não tenho sentido de humor quanto isso, não devia ter esperado por alguns momentos de risada pois acabaram por não acontecer (excepto com algumas expressões usadas pelo autor).
Fica aqui a nota pessoal para mais tarde, ao revisitar o blog, voltar a ler o livro com outro estado de espírito.
Mas devo apontar que gostei da estrutura do livro. Foram narrados os passados de cada uma das personagens e cada um foi escrito num estilo próprio. São várias abordagens e géneros literários e resulta optimamente encarar o livro como uma antologia de contos.
De todos, a minha personagem favorita é o Figurante. A maneira como o autor descreveu de maneira similar uma luta de boxe e uma audição para um filme (a personagem foi sujeita a ambos), está muito bom.

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publicado às 21:30

Ficções Phantasticas, n.º 1

11.02.14

Ficções Phantasticas, n.º 1

Editores: Marcelina Gama Leandro e Álvaro de Sousa Holstein

Uma antologia com contos muito bem escritos e bem divertidos

Nota 4/5.

Uma nota: fui um dos revisores do projecto e a ilustração da capa é de minha autoria :)

 

Uma nova antologia de contos dedicados ao género de Fantástico que tem como atractivo (ou repulsivo, depende da pessoa) de os contos não virem assinados pelos autores, prometendo assim uma isenção na opinião dada pelo leitor. O editorial da antologia fala mais disso em pormenor. Os nomes serão publicados num número posterior mas de momento isso ainda não aconteceu. Quando for o caso vou incluir os nomes nesta página.

O primeiro número achei que ficou bastante forte. As escritas estão bastante boas e as histórias são entusiasmantes ou curiosas, resultando numa óptima leitura. Vou falar de cada um dos contos:

O Basilisco no divã, de Ricardo Dias -- 4*
Gostei bastante, está um conto muito inteligente e trocou-me as voltas com muita naturalidade.
Dr. Jeremias Cor-Brilhante é um psiquiatra e é um camaleão. Sim :). Está a tratar de um caso delicado que pode solidar mais a sua carreira de sucesso. Está a tentar curar um paciente, um basilisco, através de um novo processo que ele julga ser inovador. Apesar da estranheza inicial com um universo vivido por seres sáurios, rapidamente tomei-lhe o gosto porque estava bem feito a caracterização desse universo, com bastante humor e cheio de referências da cultura popular. Imaginativo.
O conto não é muito descritivo, mal existem descrições. No entanto acho que a escrita está soberba. Há uma fluidez que me agarrou, um cuidado que me agradou. Notou-se de imediato que a narrativa é lenta, por isso não há melhor do que saborear as palavras com vagar, deixar-se levar pela história e escutar os diálogos.
Houve dois momentos que talvez aborreceram. O autor prolongou demasiado uma cena em que o basilisco negava a sua condição por muito que o doutor teimava no contrário. Parecia uma espiral, quando parecia que tinham terminado voltaram ao mesmo. O outro momento é o da palestra, demasiado professoral, académico, é sempre um risco narrar assim. Mas está muito bom, até. Passou muito bem a ideia da técnica inovadora que motivou o conto. Perfeito seria se o plano dele fosse revelado por acções das personagens e induções do leitor, não falado pelo protagonista.

Foxhund, de Marcelina Gama Leandro -- 5*
O conto alterna entre dois períodos de tempo, os capítulos são separados com as datas. E nem precisava: os ambientes estão bem conseguidos e transmitem bem essa diferença. Na primeira acção consegue-se identificar elementos do nosso passado, do tempo da Segunda Guerra. Na segunda acção temos elementos de um futuro que não aconteceu: pessoas com poderes extra-humanos, com partes mecânicas encaixadas nos seus corpos e até mesmo cães têm componentes metálicos. Estão encarcerados numa espécie de um campo de concentração, o que coloca esse futuro num ponto não tão distante do primeiro período do conto.
Schroeder é um soldado que foi destacado para um serviço especial. É submetido a rigorosos testes e começa a reprovar esses procedimentos e a duvidar do seu lugar na missão. A acção está escrita num ritmo vagaroso, devolvendo informações aos bocadinhos e fazendo-me ansiar por mais, e descrita com um tom de terror adequado.
Alex e Núria são irmãos, vivem numa comunidade fechada e isolada numa estação de caminho-de-ferros abandonada. São vigiados e todos os dias são colocados em situações de sobrevivência. Todos tem poderes consideráveis, alguns são mais poderosos e dividem-se em classes.
Certos atritos desgastem as relações na comunidade, há momentos de tensão, de desconfiança entre pequenos grupos, há quem desanima ou enraivece com tudo, outros aparentam ter a ganhar. Mas a amizade também chega a prevalecer, e é este embalo entre os extremos o que mais me agradou no conto. A caracterização está muito bem conseguida, permitiu-me visualizar imagens bem vívidas, deu uma forte impressão de serem locais reais.
A acção do Schroeder cruza-se com a acção dos irmãos e é do tipo de coisas que adoro nas histórias! Quando redefinem o que eu conhecia das personagens, quando são encaixadas novas peças e uma imagem diferente é formada na mente. A ponte entre as histórias está muito natural e o autor fá-lo de uma maneira absolutamente impecável.

Magnificat, de Álvaro de Sousa Holstein -- 3*

Um conto divertido que relata peripécias bem patetas de um desventurado cavaleiro. Tem elementos medievais e mantém-se nesse tom, por isso não acho que é um conto do género Fantástico, apesar de, sim, haver um dragão.
Sor John Clay é um cavaleiro tomado por todos como alguém ridículo, um insignificante. Tem que enfrentar um desafio que lhe foi imposto e que é tão imbecil que não dá para não achar graça, e é com motivos desses que o texto trabalha. Durante a leitura, fez-me lembrar dos Monty Python que também têm um humor algo alarve. O mundo está bem construído, as personagens são tolas mas é como se fossem perfeitas em conjunto. O que menos gostei foi das curtas aparições de diversas personagens e do final que ficou mal explicado. Foi algo desencantado para toda a gente estar feliz (quanto pode). O que é uma pena, o conto merecia melhor.
A voz do conto é rica e elaborada, e ao mesmo tempo é cativante, teatral. Deu muito gosto de ler.

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publicado às 23:00

Angel Gabriel - Pacto de Sangue

06.02.14

Pacto de Sangue

Ana C. Nunes

Uma história emocionante com personalidades diferentes do que costumo ler

Nota 4/5.

Esta opinião é capaz de ter spoilers, eu sei lá :)

 

A história é sobre uma guerra entre humanos e vampiros, é sobre duas personagens de facções contrárias da guerra, num mundo pós-apocalíptico. O ambiente está bem conseguido, com a civilização reduzida a um pequeno número de cidadelas e a tecnologia limitada a alguns meios de locomoção que continuam a funcionar. Como a maior parte da história passa-se numa carrinha a atravessar a Europa, senti a isolação e a solidão dos passageiros perante o mundo, e os interlúdios (principalmente os primeiros) que pontuam o livro contrastam desse recolhimento com a animação de um tempo antigo.

Angel, uma dos protagonistas, é uma rapariga feiticeira. São a principal esperança da humanidade contra os vampiros. De início ela não se demarcava dos restantes feiticeiros, as pessoas contavam com outros feiticeiros, entre eles a própria mãe, mas desde logo se vê que o poder da Angel é mais do que aparenta ter. Achei que ela era muito segura de si, algo arrogante e com a ideia de que é capaz de tudo perfeitamente sozinha. Apesar disso, ela revela um ter um bom coração com as pessoas que a estimam, como a sua mãe e a sua meia-irmã. Apenas é uma pessoa difícil de se lidar com pessoas que mal conhece, senti assim, e nos primeiros capítulos ela revelou ter uma mentalidade... bem, estranha, com a relação que tinha com alguém do refúgio onde vivia, principalmente tendo em conta a fama desse seu amigo, e, para ser sincero, não simpatizei logo com ela.

Gabriel é um Sekhmet, uma raça especial de vampiro, que lhe confere poder e ranking entre os seus. Despreza humanos mas, apesar da sua condição, não acha agradável o tempo passado entre os vampiros. Também é seguro de si, no entanto é reservado e prefere esperar pelos melhores momentos para organizar ideias. Mas teve oportunidades de sobra para expressar a opinião nos constantes conflitos com a Angel. Achei muito engraçada essa parte, uma relação em que ambas as partes dispensavam bem a companhia um do outro e, aos poucos, foi avançando para algo mais e no fim se tornou decisiva a reunião entre os dois no desfecho da guerra. Pessoalmente gostei mais de ler os capítulos na perspectiva do Gabriel pois reflectia muito sobre a guerra e sobre as dúvidas e acções que tomava que poderiam ir contra a sua natureza; muito deste mundo foi-me transmitido através dele.

Os dois ficaram unidos por um feitiço e foram recorrer à única feiticeira capaz de os libertar. Pelo caminho há uma galeria de personagens que os acompanharam, os que apoiaram e os que se atravessaram no caminho. Amilda é a meia-irmã da Angel, e mostra um lado generoso que gostava de ter visto mais cedo na Angel. Com ela, a história permitiu-se desanuviar um pouco o ambiente, o que lhe fica bem. É uma rapariga fofa mas também destemida. Acompanhou a Angel desde o início e foi fundamental no apoio à resolução dos protagonistas. Davet também os acompanhou durante a maior parte da viagem e é um vampiro. Fiquei a crer que não é tão poderoso como o Gabriel, não é de nenhuma raça em especial, mas é um tipo calado e sabemos como muitas vezes o tipo calado pode ser muito assustador. Pelo caminho defrontaram vampiros. Omniua foi a vampira que mais presença teve na história, é uma Primordial, uma dos Treze. Apesar de haver uma extensa galeria de personagens, raças e feitiços, não senti necessidade de um glossário. Na verdade esteve tudo muito natural e eficaz, não achei confuso ou complicado. A exploração das personagens secundárias esteve equilibrada, com as cenas tão necessárias quanto a relevância de cada uma.

A escrita da autora é directa e muito descritiva, simples mas sem ser simplista, penso que é vocacionado a todos jovens e adultos. Tem bastante corpo, satisfaz a vontade em acompanhar a história e é fácil de imaginar as cenas como se corressem perante os meus olhos. A facilidade é tanto conseguida nas descrições de estados introspectivos como nas cenas de acção e de muita luta, apesar de aqui e ali haver umas expressões que destoam um pouco. As lutas estão dinâmicas e gostei especialmente do confronto final que, com o grupo de personagens todo presente, ficou bem conseguido, empolgante e apelativo. Algumas cenas foram sangrentas. Mas sangrentas. Os capítulos que mais gostei são aqueles em que as personagens partilharam pequenos pedaços de si nos momentos em que andavam escondidos. A autora teve habilidade em expressar sentimentos nos mais pequenos gestos, nos sussurros e nos silêncios. Recordo especialmente de uma cena passada num quarto escuro, a fim de eles retemperar forças após passarem por confrontos físicos. Gabriel fez algo pela Angel que era o que ela menos esperava. A conversa que se seguiu no escuro ficou delicada e sensível, tenho quase a certeza que quando a li fiquei com a respiração em suspenso.

Se ao longo do livro tive oportunidades em ver a determinação e o poder da Angel, foi pena que não tenha sentido o mesmo com o vilão, acho que ele deveria ter tido um pouco mais de presença. Gostava de ter visto do que ele era capaz de fazer, a que extremos tomava as suas acções, e num momento mais oportuno da história.

Hoje em dia os livros são deixados com um final em aberto pelos seus autores. Mesmo que a história, a jornada, esteja terminada, há pontas soltas por atar e muitas ideias por resolver deixadas para a imaginação do leitor, se o leitor quiser e se o autor deixar o suficiente. E nem falo das que perspectivam ser o primeiro volume de uma saga... Há quantos livros não lia eu que tinham um final tão definitivo? Com um momento determinante de que sabemos não haver retrocesso nem mais avanços? Foi o caso deste livro. Adorei o final, é muito forte e achei até algo romântico. Valeu imenso a pena acompanhar as personagens até ao fim da sua jornada, percorrer com eles as estradas do mundo dividido entre vampiros e humanos, conviver nos momentos de tranquilidade e lutar com eles nas batalhas, e no fim estar junto deles até ao último instante, ao último parágrafo.

Os locais de venda do livro, que de momento só está em formato ebook, podem ser consultados na página da autora, vale a pena consultar.

Book-trailer do livro:

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publicado às 20:00

Os Fantasmas de Goya

19.12.13

Os Fantasmas de Goya

Miloš Forman

Baseado em factos históricos, é um filme simpático, ficção interessante e dramática, mas desaponta quem quer conhecer a vida do pintor espanhol Goya

Nota 3/5.

Esta opinião é capaz de ter spoilers, eu sei lá :)

 

Porque até que desenho coisas nos meus tempos livres, sempre tive muito interesse em ver filmes que retratassem as vidas e peripécias de artistas, principalmente de pintores, de preferência os "clássicos" ou os que revolucionaram a pintura, e então se desconhecidos para mim é uma obrigação que os veja, sempre que cai em mim a oportunidade de os ver.
Goya é um destes pintores, cujo nome, a mim, precede à fama[1]. Ou seja, conheço o nome mas desconheço a arte (não me recordo de alguma obra sua em especial). Com expectativa quis saber mais dele, da sua arte e porque singrou na História. Nesse aspecto o filme desiludiu-me.
Goya, aqui nesta história, não passa de contacto comum entre duas personagens, um padre e uma jovem, e também para nos situar no período da história. Um engodo, diria. Desempenhado pelo actor Stellan Skarsgård, Goya é um pintor atarefado (entre os seus trabalhos, uma encomenda da Rainha de Espanha) que trabalhava numa pintura de um padre. O padre não deixou de reparar, no atelier do pintor, num esboço de uma rapariga, filha de um habitual cliente do pintor. Quis o destino padre que providências fossem tomadas para que a rapariga seja levada à presença do padre, se bem que com um pretexto desagradável.

Antes de delongar-me no costumeiro resumo da história quero evidenciar um pormenor que achei imensa piada. Nesta cena, enquanto o padre posava para o seu retrato, o pintor perguntou-lhe se deseja que as suas mãos sejam retratadas na pintura. É que as mãos são tramadas de desenhar e o padre teria que desembolsar um valor extra por cada mão. É verdade que todo o artista admite a dificuldade em desenhar mãos (comigo é) mas seria verdade que era exigido, além do pagamento pela encomenda, um extra para compensar as voltas demoradas em torno das mãos? Verdade ou não, não deixa de ser engraçado.

Voltando ao resumo da história: a rapariga foi afastada da sua família por motivos que ninguém se atreveu a refutar e aceitou o auxílio que o padre quis prestar-lhe. O padre, interpretado pelo Javier Bardem, faz parte do Santo Ofício, sabe o poder que possui e usa-o em seu beneficio. Não pretende mais do que gozar de uma posição privilegiada, aqui e ali dá pistas que até nem aprecia os métodos usados pela Igreja, julgando-a até retrógada e ultrapassada. Ele apenas junta-se aos vencedores. No entanto ele próprio resgata métodos proibidos e temíveis, para proteger o seu lugar. A rapariga, na pessoa de Natalie Portman, por seu turno, é totalmente obediente à Igreja, procura sempre estar nas graças dos clérigos, entregando-lhes a alma mas também o corpo (as cenas dos métodos do Santo Ofício estão fatelas, já agora), nunca se revoltando contra os males. Entre eles formam uma relação e já disse muito, sabendo que os padres eram suposto praticar celibato.

A história passa por vários períodos, todos conturbados: a invasão napoleónica, o enfraquecimento da igreja espanhola. Ela regressa à vida do padre após estes tempos como um erro do passado e achei interessante o vai-e-vem do interesse do padre nela, ora para se proteger a si próprio, ora para a proteger. Ela passou por imensa coisa e foi arrepiante ver as mudanças físicas que ocorreram nela. O filme vale sobretudo por esta relação proibida, com todos os seus contornos imorais e escondidos.

Portanto o pintor foi relegado para mero espectador dos acontecimentos, está presente e interage mas não influencia. Não acho mal, apenas não podemos dizer ser ficção histórica mas sim ser romance de época. Desde logo senti que não foi feito muito trabalho de pesquisa, tanto quanto percebi não existiu esse padre, não o conheceu e muito menos o pintou, nem deve ter pintado a menina nem conheceu o seu pai. São personagens de ficção. Goya serviu para dar um toque de veracidade histórica ou até só porque ficava bem, o que é bom. Podia ser ele como qualquer outro, a escolha recaiu sobre ele talvez pelo seu lado público, mostrado no filme, um lado político e de renegação da igreja, mas isso muitos artistas o foram. Portanto este filme não me permitiu conhecer o Goya.

O maior motivo para ver este filme é, sem dúvida, a magnífica interpretação do elenco, principalmente do Javier Bardem e da Natalie Portman. Javier transmite bem a personagem poderosa, a voz calma e o olhar inquisitivo, ocasionalmente quebrando em acessos coléricos, chega a ser assustador, mas é a prestação da Natalie Portman que ficou memorável, desde a ingenuidade doce até às amarguras sofridas, é impressionante a dor que transpareceu. Foi emotivo assistir à última transformação física da personagem. Já aqui se adivinhava o Óscar que ela ganharia poucos filmes depois.

Antes de acabar a opinião, gostaria também de mostrar uma cena interessante do filme. Foi filmada com uma soberba montagem e um música bem escolhida. Espreitem o vídeo, é pequeno e não se consegue deixar de ver até ao fim. Mas é para falar dum ponto negativo que quis mostrar. O artista faz uma ilustração bastante trabalhada mas que foi representada num tempo físico da cena de apenas uns segundos. Vemos depois um processo, bastante técnico, da reprodução da ilustração em várias cópias. O embelezamento da cena engana, atribui demasiada importância a um mero processo e não mostra a morosidade do ilustrador (e porque não seria giro ver também essa parte, nem por um bocadinho?). Os técnicos (reconhecendo-lhes a vital importância) não contribuem para a arte, só o artista, e o tempo concedido a ele é, à falta de melhor palavra, ingrato.

[1] sei que se diz ao contrário :)

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publicado às 20:00

Como treinares o teu dragão

12.12.13

Como treinares o teu dragão

Dean DeBlois, Chris Sanders

Dreamworks Animation

Um filme notável e maravilhoso. É não só dos melhores filmes de animação mas dos melhores filmes dos últimos anos

Nota 5/5.

Esta opinião é capaz de ter spoilers, eu sei lá :)

 

A história é amorosa, espécie de "rapaz conhece dragão", mas a estética é sombria. Os filmes da animação, principalmente os do mundo ocidental, tendem a ser muito coloridos, luzes e tons vibrantes (há excepções, mas geralmente são dirigidos a um público adulto). O design abordado neste filme parece-me certeira, num mundo frio e algo obscuro que é o dos vikings quase tudo é representado envolto em neblinas e sombras, tudo reduzido a silhuetas e formas. E isso não retira carácter ao cenário, dá-lhe profundidade, e jogaram isso a favor do filme. E é interessante notar que ao longo do filme a luz parece mudar e que quanto mais perto do fim mais tudo tem imensa cor. Já se espera um final satisfatório, como é habitual num filme desta produção, por isso há razão de ser desta mudança de cores.

As personagens estão bem desenhadas, muito bem animadas, perfeitas. Como sempre, os "actores" animados fazem melhor figura que os reais, as expressões de rosto e de corpo transmitem umas emoções tais que os actores reais ficam com inveja de não as ter no seu portefólio. Mas isso acontece com qualquer filme animado, não é nenhuma novidade o que acho, e este filme não é diferente. Agora, há uma coisa que me incomodou um bocadinho assim e que talvez os demais fãs do filme vão implicar comigo - e tem a ver com os personagens não-humanas: os dragões. É que alguns destes animais ficaram com aspecto de, eh, pá, patetas. Assim um ar de trengos. Porque não foram todos desenhados como o dragão que se tornou no amigo do herói? Ora olham para este focinho

(imagem tirada daqui)
um focinho que atrai a nossa afeição mas ao mesmo tempo toma-nos de medo,
que deixa adivinhar uma grande sabedoria mas também uma grande curiosidade

Cool, eu sei! Vejamos agora o ar de muitos dos restantes dragões

(imagem tirada daqui)

Reconheço que ficaram amorosos, sim, porque faço então menção deste detalhe? É que os dragões movem-se de um maneira peculiar, tem atitudes curiosas e brincam de uma forma familiar. Há um animal que inspira este feitio neles, que os tornam irresistíveis, e o animal trata-se do gato. Os gatos não são trengos!
Oh, mas adorei isso, que se comportam como gatos, acho uma ideia maravilhosa!

A história é sobre um pequeno viking, de nome Hiccup Horrendous Haddock III, um rapaz solitário, sem amigos e com intelecto e coração. Vive numa ilha de caçadores de dragões e derrotar um dragão nessa terra é ganhar respeito, ser carregado em ombros e granjear uma namorada ao colo (ah, se fosse assim tão fácil). O rapaz, munido dessa esperança e do seu intelecto, constrói um armadilha e captura um dragão. Mas o seu coração impediu-o de o derrotar e deixa-o em liberdade. O dragão não foi muito longe e os dois voltaram a encontrar-se. A partir daqui formou-se uma amizade e uma aliança. E o rapaz descobriu-se a si próprio e mudou a maneira de entender dragões da aldeia em peso. Primeiro, dos novos amigos, depois dos líderes e por fim do seu pai. Um rapaz que ninguém lhe fazia caso e que nada esperava encontrou o seu lugar na aldeia. É uma bonita mensagem: não fazer o que as pessoas esperam que seja feito. Manter-se fiel a si próprio, quem partilhar os seus ideais há-de querer estar com ele, só assim é que tudo faz valer a pena.

Tem cenas memoráveis. Lembro-me de umas divertidas quando ele andava nos treinos e conseguia derrotar dragões e ninguém conseguia adivinhar o seu segredo. Da cena em que o pai o repudiou quando o segredo foi descoberto. Da cena muito repescada do filme Alladin, quando o herói e a amiga voam no dorso do dragão pelo céu nocturno.

Não posso falar muito da banda sonora, parece-me que não prestei-lhe muita atenção. Ao procurar isso no youtube acabei por encontrar a minha cena favorita do filme. Sugiro uma espreitadela, às cores, aos movimentos e às expressões:

Um filme muito terno, muito divertido, cheio de acção e de coração. Memorável.

Há que aguardar, pacientemente, pela estreia da sequela em Portugal. Gostava de também assistir aos projectos spin-off do filme, se tiver oportunidade, tais como as duas temporadas para televisão, Defenders of the Berk e Raiders of the Berk, o video-jogo, claro, e pontualmente as curtas-metragens, algumas disponíveis através do youtube. Valem a pena assistir (têm animações em 2D bem giras), só é pena não haver com legendas... :

Ah, já me ia esquecer dos livros, ora que coisa. Claro que não se pode deixar de mencionar que o filme é baseado numa série de livros infanto-juvenis da autora Cressida Cowel e uma visita à página dos livros não é menos que obrigatória. Consta que o filme é diferente do livro homónimo... O livro é mais fofinho!

Nota: Um agradecimento muito especial à Ana Nunes por ter-me emprestado o filme

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publicado às 20:00


Feira do Livro de Braga

Braga, 3 de Julho a 19 Julho


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