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Ficções Phantasticas, n.º 1

11.02.14

Ficções Phantasticas, n.º 1

Editores: Marcelina Gama Leandro e Álvaro de Sousa Holstein

Uma antologia com contos muito bem escritos e bem divertidos

Nota 4/5.

Uma nota: fui um dos revisores do projecto e a ilustração da capa é de minha autoria :)

 

Uma nova antologia de contos dedicados ao género de Fantástico que tem como atractivo (ou repulsivo, depende da pessoa) de os contos não virem assinados pelos autores, prometendo assim uma isenção na opinião dada pelo leitor. O editorial da antologia fala mais disso em pormenor. Os nomes serão publicados num número posterior mas de momento isso ainda não aconteceu. Quando for o caso vou incluir os nomes nesta página.

O primeiro número achei que ficou bastante forte. As escritas estão bastante boas e as histórias são entusiasmantes ou curiosas, resultando numa óptima leitura. Vou falar de cada um dos contos:

O Basilisco no divã, de Ricardo Dias -- 4*
Gostei bastante, está um conto muito inteligente e trocou-me as voltas com muita naturalidade.
Dr. Jeremias Cor-Brilhante é um psiquiatra e é um camaleão. Sim :). Está a tratar de um caso delicado que pode solidar mais a sua carreira de sucesso. Está a tentar curar um paciente, um basilisco, através de um novo processo que ele julga ser inovador. Apesar da estranheza inicial com um universo vivido por seres sáurios, rapidamente tomei-lhe o gosto porque estava bem feito a caracterização desse universo, com bastante humor e cheio de referências da cultura popular. Imaginativo.
O conto não é muito descritivo, mal existem descrições. No entanto acho que a escrita está soberba. Há uma fluidez que me agarrou, um cuidado que me agradou. Notou-se de imediato que a narrativa é lenta, por isso não há melhor do que saborear as palavras com vagar, deixar-se levar pela história e escutar os diálogos.
Houve dois momentos que talvez aborreceram. O autor prolongou demasiado uma cena em que o basilisco negava a sua condição por muito que o doutor teimava no contrário. Parecia uma espiral, quando parecia que tinham terminado voltaram ao mesmo. O outro momento é o da palestra, demasiado professoral, académico, é sempre um risco narrar assim. Mas está muito bom, até. Passou muito bem a ideia da técnica inovadora que motivou o conto. Perfeito seria se o plano dele fosse revelado por acções das personagens e induções do leitor, não falado pelo protagonista.

Foxhund, de Marcelina Gama Leandro -- 5*
O conto alterna entre dois períodos de tempo, os capítulos são separados com as datas. E nem precisava: os ambientes estão bem conseguidos e transmitem bem essa diferença. Na primeira acção consegue-se identificar elementos do nosso passado, do tempo da Segunda Guerra. Na segunda acção temos elementos de um futuro que não aconteceu: pessoas com poderes extra-humanos, com partes mecânicas encaixadas nos seus corpos e até mesmo cães têm componentes metálicos. Estão encarcerados numa espécie de um campo de concentração, o que coloca esse futuro num ponto não tão distante do primeiro período do conto.
Schroeder é um soldado que foi destacado para um serviço especial. É submetido a rigorosos testes e começa a reprovar esses procedimentos e a duvidar do seu lugar na missão. A acção está escrita num ritmo vagaroso, devolvendo informações aos bocadinhos e fazendo-me ansiar por mais, e descrita com um tom de terror adequado.
Alex e Núria são irmãos, vivem numa comunidade fechada e isolada numa estação de caminho-de-ferros abandonada. São vigiados e todos os dias são colocados em situações de sobrevivência. Todos tem poderes consideráveis, alguns são mais poderosos e dividem-se em classes.
Certos atritos desgastem as relações na comunidade, há momentos de tensão, de desconfiança entre pequenos grupos, há quem desanima ou enraivece com tudo, outros aparentam ter a ganhar. Mas a amizade também chega a prevalecer, e é este embalo entre os extremos o que mais me agradou no conto. A caracterização está muito bem conseguida, permitiu-me visualizar imagens bem vívidas, deu uma forte impressão de serem locais reais.
A acção do Schroeder cruza-se com a acção dos irmãos e é do tipo de coisas que adoro nas histórias! Quando redefinem o que eu conhecia das personagens, quando são encaixadas novas peças e uma imagem diferente é formada na mente. A ponte entre as histórias está muito natural e o autor fá-lo de uma maneira absolutamente impecável.

Magnificat, de Álvaro de Sousa Holstein -- 3*

Um conto divertido que relata peripécias bem patetas de um desventurado cavaleiro. Tem elementos medievais e mantém-se nesse tom, por isso não acho que é um conto do género Fantástico, apesar de, sim, haver um dragão.
Sor John Clay é um cavaleiro tomado por todos como alguém ridículo, um insignificante. Tem que enfrentar um desafio que lhe foi imposto e que é tão imbecil que não dá para não achar graça, e é com motivos desses que o texto trabalha. Durante a leitura, fez-me lembrar dos Monty Python que também têm um humor algo alarve. O mundo está bem construído, as personagens são tolas mas é como se fossem perfeitas em conjunto. O que menos gostei foi das curtas aparições de diversas personagens e do final que ficou mal explicado. Foi algo desencantado para toda a gente estar feliz (quanto pode). O que é uma pena, o conto merecia melhor.
A voz do conto é rica e elaborada, e ao mesmo tempo é cativante, teatral. Deu muito gosto de ler.

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publicado às 23:00



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Braga, 3 de Julho a 19 Julho


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