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Os Fantasmas de Goya

19.12.13

Os Fantasmas de Goya

Miloš Forman

Baseado em factos históricos, é um filme simpático, ficção interessante e dramática, mas desaponta quem quer conhecer a vida do pintor espanhol Goya

Nota 3/5.

Esta opinião é capaz de ter spoilers, eu sei lá :)

 

Porque até que desenho coisas nos meus tempos livres, sempre tive muito interesse em ver filmes que retratassem as vidas e peripécias de artistas, principalmente de pintores, de preferência os "clássicos" ou os que revolucionaram a pintura, e então se desconhecidos para mim é uma obrigação que os veja, sempre que cai em mim a oportunidade de os ver.
Goya é um destes pintores, cujo nome, a mim, precede à fama[1]. Ou seja, conheço o nome mas desconheço a arte (não me recordo de alguma obra sua em especial). Com expectativa quis saber mais dele, da sua arte e porque singrou na História. Nesse aspecto o filme desiludiu-me.
Goya, aqui nesta história, não passa de contacto comum entre duas personagens, um padre e uma jovem, e também para nos situar no período da história. Um engodo, diria. Desempenhado pelo actor Stellan Skarsgård, Goya é um pintor atarefado (entre os seus trabalhos, uma encomenda da Rainha de Espanha) que trabalhava numa pintura de um padre. O padre não deixou de reparar, no atelier do pintor, num esboço de uma rapariga, filha de um habitual cliente do pintor. Quis o destino padre que providências fossem tomadas para que a rapariga seja levada à presença do padre, se bem que com um pretexto desagradável.

Antes de delongar-me no costumeiro resumo da história quero evidenciar um pormenor que achei imensa piada. Nesta cena, enquanto o padre posava para o seu retrato, o pintor perguntou-lhe se deseja que as suas mãos sejam retratadas na pintura. É que as mãos são tramadas de desenhar e o padre teria que desembolsar um valor extra por cada mão. É verdade que todo o artista admite a dificuldade em desenhar mãos (comigo é) mas seria verdade que era exigido, além do pagamento pela encomenda, um extra para compensar as voltas demoradas em torno das mãos? Verdade ou não, não deixa de ser engraçado.

Voltando ao resumo da história: a rapariga foi afastada da sua família por motivos que ninguém se atreveu a refutar e aceitou o auxílio que o padre quis prestar-lhe. O padre, interpretado pelo Javier Bardem, faz parte do Santo Ofício, sabe o poder que possui e usa-o em seu beneficio. Não pretende mais do que gozar de uma posição privilegiada, aqui e ali dá pistas que até nem aprecia os métodos usados pela Igreja, julgando-a até retrógada e ultrapassada. Ele apenas junta-se aos vencedores. No entanto ele próprio resgata métodos proibidos e temíveis, para proteger o seu lugar. A rapariga, na pessoa de Natalie Portman, por seu turno, é totalmente obediente à Igreja, procura sempre estar nas graças dos clérigos, entregando-lhes a alma mas também o corpo (as cenas dos métodos do Santo Ofício estão fatelas, já agora), nunca se revoltando contra os males. Entre eles formam uma relação e já disse muito, sabendo que os padres eram suposto praticar celibato.

A história passa por vários períodos, todos conturbados: a invasão napoleónica, o enfraquecimento da igreja espanhola. Ela regressa à vida do padre após estes tempos como um erro do passado e achei interessante o vai-e-vem do interesse do padre nela, ora para se proteger a si próprio, ora para a proteger. Ela passou por imensa coisa e foi arrepiante ver as mudanças físicas que ocorreram nela. O filme vale sobretudo por esta relação proibida, com todos os seus contornos imorais e escondidos.

Portanto o pintor foi relegado para mero espectador dos acontecimentos, está presente e interage mas não influencia. Não acho mal, apenas não podemos dizer ser ficção histórica mas sim ser romance de época. Desde logo senti que não foi feito muito trabalho de pesquisa, tanto quanto percebi não existiu esse padre, não o conheceu e muito menos o pintou, nem deve ter pintado a menina nem conheceu o seu pai. São personagens de ficção. Goya serviu para dar um toque de veracidade histórica ou até só porque ficava bem, o que é bom. Podia ser ele como qualquer outro, a escolha recaiu sobre ele talvez pelo seu lado público, mostrado no filme, um lado político e de renegação da igreja, mas isso muitos artistas o foram. Portanto este filme não me permitiu conhecer o Goya.

O maior motivo para ver este filme é, sem dúvida, a magnífica interpretação do elenco, principalmente do Javier Bardem e da Natalie Portman. Javier transmite bem a personagem poderosa, a voz calma e o olhar inquisitivo, ocasionalmente quebrando em acessos coléricos, chega a ser assustador, mas é a prestação da Natalie Portman que ficou memorável, desde a ingenuidade doce até às amarguras sofridas, é impressionante a dor que transpareceu. Foi emotivo assistir à última transformação física da personagem. Já aqui se adivinhava o Óscar que ela ganharia poucos filmes depois.

Antes de acabar a opinião, gostaria também de mostrar uma cena interessante do filme. Foi filmada com uma soberba montagem e um música bem escolhida. Espreitem o vídeo, é pequeno e não se consegue deixar de ver até ao fim. Mas é para falar dum ponto negativo que quis mostrar. O artista faz uma ilustração bastante trabalhada mas que foi representada num tempo físico da cena de apenas uns segundos. Vemos depois um processo, bastante técnico, da reprodução da ilustração em várias cópias. O embelezamento da cena engana, atribui demasiada importância a um mero processo e não mostra a morosidade do ilustrador (e porque não seria giro ver também essa parte, nem por um bocadinho?). Os técnicos (reconhecendo-lhes a vital importância) não contribuem para a arte, só o artista, e o tempo concedido a ele é, à falta de melhor palavra, ingrato.

[1] sei que se diz ao contrário :)

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publicado às 20:00



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